BCFV - 3ª FASE - ADOLESCÊNCIA
Dois acontecimentos marcaram profundamente a minha adolescência. Como narrei na blogagem anterior, cresci na fazenda e lá passei a mais perfeita infância. Aos 12 anos, meu tio comprou a casa mais linda da cidadezinha. Foi construída dentro dos padrões modernos do início da década áurea dos anos sessenta. Foi um alvoroço na cidade, pois ela fugia totalmente do esquema vigente , com linhas retas, tinha a varanda toda envidraçada, com persianas verdinhas, bem clarinhas. Era todinha ladrilhada com piso preto e branco, azulejos no banheiro, banheira, bidê e vaso sanitário de cor pink, foi a coisa mais maravilhosa, para quem usava a casinha de madeira, com fossa. Na cozinha, azulejos nas paredes, fogão a gás, sem aquele cheiro de fumaça e sem o fundo das panelas pretos para arear. A pia era um sonho com torneira. Na fazenda não tínhamos. A água era coletada do poço e posta numa grande caixa de cimento que era chamada de vasca. Tudo um vislumbre, novidade demais para quem cresceu com simplicidade, dormindo em colchão de palha, travesseiro de penas, luz de lampião e totalmente sem conviver com luxo algum. A foto nem chega a mostrar a casa, mas vê-se um pedaço da tal varanda envidraçada.
Foto rara: Lisberto, hoje marido de Maria Joaquina, minha tia, tia Genoveva, minha doce vovó Ermelida e eu. Nunca mais esqueci o dia que chegando do colégio encontrei na cozinha uma geladeira. Aquele cheirinho diferente de coisa nova impregnou minhas narinas e ainda aqui estão, e ao abrí-la, uma assadeira com um bolo de laranja que nunca antes minha mãe fizera. Aquele bolo, eu nunca esqueci e a felicidade que a geladeira me proporcionou também.
Nas tardes de domingo íamos espiar, na casa da vizinha ( a única a ter tv) o furor da Jovem Guarda e o que podíamos copiar em termos da moda, copiávamos. Os rapazes faziam serenatas, bailinhos nas casas ao som do "Do you wanna dance, festinhas do colégio, do padroeiro, com esta:
Houve também nossa primeira viagem à São Paulo com a grande novidade: o "fusca". Fomos para o litoral conhecer o mar e Aparecida do Norte. A foto do mar desapareceu.
Minha saia de tergal plissada, pentedo "bananinha" e minha tia com seu "tubinho"
O segundo fato mais importante de todos é que com meus 13 anos me apaixonei perdidamente pelo rapaz mais cobiçado e lindo. Ele havia terminado o exército lá em Brasília. Ele veio visitar a mãe. Passei por ele, achei-o "um pão" e não demorou muito para eu receber a carta mais linda do mundo. No dia de Santo Antonio, 13 de junho de 1963 iniciamos o namoro, mas com a professora da fazenda, do lado. Foi paixão avassaladora. Um amor puro, verdadeiro e leal.
Esse era o meu Tony. Sete anos mais velho. Nascido na mesma cidadezinha, foi coroinha da igreja e contava com orgulho da sua memória que se lembrava de minha mãe solteira. Como o lugar era muito pequeno, cedo ele saiu em busca de algo melhor, até ir para o Rio e acabar trabalhando na Embaixada da Alemanha. Namoramos sete anos, pois minha mãe, muito sábia, não permitiu que eu me casasse sem ter meu diploma de professora. Houveram muitas e muitas cartas. Vindas dele para me ver que eram sempre esperadas com grande intensidade.
Foto tirada especialmente para ele, retribuindo a foto que ele me dera. Era costume a troca de fotos. Tinha 14 anos.
Essa foto foi tirada na fazenda, anos depois de termos nos mudado de lá. A roda d'água que movia a mó para triturar o milho, já estava abandonada, pois com os anos, o fubá vinha prontinho, em saquinhos plásticos nas prateleiras dos armazéns. Tony me presenteou com uma câmera e tiramos muitas fotos naquele dia. Ele foi meu primeiro e único namorado. Minha adolescência como a de todos ocorreu na normalidade na pureza e na inocência. Eu lia muito livros, adorava a revista Claudia, Desfile e meu programa favorito sempre foi filmes. Enfim, procurava estar sempre atualizada com as mudanças que ocorriam no mundo. Encerro essa fase com uma vontade imensa de contar mais, pois assunto teria, mas fica aqui o fim dela com minha foto para tirar meu título de eleitora.
Pena que a foto foi dobrada.
Mais uma vez, o meu especial obrigada a essas incríveis meninas: Rosélia, Gina e Rute, por idealizarem e tornar possível essa tão linda recordação de nossas vidas.


